quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
PAIXÃO E INTIMIDADE
Paixão é o risco vindo do mistério do outro. Intimidade é o conforto que a transparência oferece. Qual você prefere em um relacionamento?
Estava lendo uma resenha sobre o livro The Erotic Mind: Unlocking the Inner Sources of Sexual Passion and Fulfillment, de Jack Morin (publicado no Brasil pela Rocco).
Achei interessante a distinção que ele faz entre intimidade e paixão. Intimidade é definida como a sensação de conhecer cada detalhe do parceiro – é a segurança, o conforto, a transparência, um sentir-se em casa. Já a paixão surge quando percebemos o parceiro como um mistério insondável, como alguém que nunca poderemos conhecer, tocar ou acessar totalmente – é a insegurança, o risco, o incerto, a aventura.
Eu ainda não li o livro, mas sinto que as relações que possuem apenas um desses contrários não duram muito, não se desenvolvem, não nos completam. Somente intimidade é quase como uma profunda amizade. Não há desejo sexual, não há polaridade entre os parceiros, não há vontade de penetrar o outro, não há surpresas, somente um terno abraço e um longo andar de mãos dadas. Por outro lado, se uma relação é construída somente pela paixão, os laços são frágeis e nossa ânsia por intimidade rapidamente desgasta os encontros. Sem intimidade, fica faltando algo no sexo, no carinho, na conversa. Fica faltando algo na própria paixão.
Talvez a paixão autêntica apenas floresça em meio à intimidade. Talvez a intimidade só surja com a paixão, como o côncavo e o convexo. Talvez elas nasçam e morram juntas, pois quando o que existe é a sensação de saber tudo sobre o outro, há o tédio e não intimidade, e quando o outro é apenas um mistério inalcançável e fascinante, há a distância e não a paixão. Sem paixão, a intimidade acaba morrendo por asfixia, sem conseguir expressar-se por meio de atos transgressores. Sem intimidade, a paixão não se sustenta e perde o sentido, como um final de filme para quem não viu o início e o meio.
Tem de haver contato, mas o contato nunca pode chegar a acontecer… Por isso nos beijamos, esfregamos, suamos juntos: tentamos o contato que não é possível por meio dos contatos que nos são possíveis.
Sexo e abraço, aventura e acolhimento, paixão e intimidade. O sexo pleno demanda o mínimo de intimidade e a conexão transparente só nos completa quando se desdobra em sexo, em paixão, em envolvimento com um outro que nunca se mostra totalmente ao nosso olhar.
Somos, a um só tempo, totalmente expostos, cognoscíveis, e totalmente inacessíveis, incognoscíveis. Nosso parceiro sempre está perto demais e distante demais. Em nossa dimensão epidérmica, desejamos nos vestir com o outro, desejamos intimidade. Em nossa dimensão abismal, nos apaixonamos ao correr a distância irredutível do outro.
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
Sobre Felicidade
Fonte:Ricardo Lombardi
“Não se pode sustentar que a civilização por si mesma faz os homens ‘mais felizes’ do que eles são na condição selvagem.” (Frank Knight, 1922).
“A felicidade é a satisfação ulterior de um desejo pré-histórico. Eis por que a riqueza proporciona tão pouca felicidade; o dinheiro não é um desejo infantil.” (Freud, 1902).
“Segundo Kant, a felicidade é a satisfação de todas as nossas inclinações e de todos os nossos desejos. Por isso, o conceito é indeterminado: todos nós desejamos ser felizes, mas ninguém sabe exatamente como conseguir isso. Para Kant, seria necessário um ‘todo absoluto, um máximo de bem-estar em meu estado presente e em toda minha condição futura’. Seguramente, isso é algo que nenhum elemento empírico é capaz de proporcionar. Consequentemente, a felicidade aqui na Terra é algo inacessível e mesmo impensável em seus detalhes. Teremos sempre desejos insatisfeitos e, em consequencia disso, jamais seremos plenamente felizes. Kant acredita que é justamente por isso que a felicidade é um ideal ‘que não procede da razão, mas sim da imaginação’. Podemos sonhar com a felicidade, mas jamais chegaremos a conhecê-la e, muito menos, vivê-la.” (André Comte-Sponville).
Fontes: “A mais bela história da felicidade” e “O livro das citações”. para ilustrar, trabalho de Matthew Barney
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
O segredo da vida de um casal
Texto de Contardo Calligaris
Receita do amor que dura: amar o outro não apesar de sua diferença, mas por ele ser diferente.
Em geral , na literatura, no cinema e nas nossa fantasias, as histórias de amor acabam quando os amantes se juntam (é o modelo Cinderela) ou, então, quando a união esbarra num obstáculo intransponível (é o modelo Romeu e Julieta). No modelo Cinderela, o narrador nos deixa sonhando com um “viveram felizes para sempre”, que seria a “óbvia” conseqüência da paixão. No modelo Romeu e Julieta, a felicidade que os amantes teriam conhecido, se tivessem podido se juntar, é uma hipótese indiscutível. O destino adverso que separou os amantes (ou os juntou na morte) perderia seu valor trágico se perguntássemos: será que Romeu e Julieta continuariam se amando com afinco se, um dia, conseguissem deitar-se juntos sem que Romeu tivesse que escalar a casa de Julieta até o famoso balcão? Ou se, em vez de enfrentar a oposição letal de suas ascendências, eles passassem os domingos em espantosos churrascos de família?
Talvez as histórias de amor que acabam mal nos fascinem porque, nelas, a dificuldade do amor se apresenta disfarçada. A luta trágica contra o mundo que se opõe à felicidade dos amantes pode ser uma metáfora gloriosa da dificuldade, tragicômica e inglória, da vida conjugal. O casal que dura no tempo, em regra, não é tema para uma história de amor, mas para farsa ou vaudeville -às vezes, para conto de terror, à la “Dormindo com o Inimigo”.
Durante décadas, Calvin Trillin escreveu uma narrativa de sua vida de casal, na revista “New Yorker” e em alguns livros (por exemplo, “Travels with Alice”, viajando com Alice, de 1989, e “Alice, Let’s Eat”, Alice, vamos para a mesa, de 1978). Nesses escritos, que são só uma parte de sua produção, Trillin compunha com sua mulher, Alice, uma dobradinha humorística, em que Calvin era o avoado, o feio e o desajeitado, e Alice encarnava, ao mesmo tempo, a beleza, a graça e a sabedoria concreta de vida.
À primeira vista, isso confirma a regra: a vida de casal é um tema cômico. Mas as crônicas de Trillin eram delicadas e tocantes: engraçadas, mas nunca grotescas. Trillin não zombava da dificuldade da vida de casal: ele nos divertia celebrando a alegria do casamento. Qual era seu segredo? Pois bem, Alice, com quem Trillin se casou em 1965, morreu em 2001.
Trillin escreveu “Sobre Alice”, que acaba de ser publicado pela Globo. Esse pequeno e tocante texto de despedida desvenda o segredo de um amor e de uma convivência felizes, que duraram 35 anos. O segredo é o seguinte: Calvin e Alice, as personagens das crônicas, não eram artifícios literários, eram os próprios. A oposição entre os dois foi, efetivamente, o jeito especial que eles inventaram para conviver e prolongar o amor na convivência.
Considere esta citação de um texto anterior, que aparece no começo de “Sobre Alice”: “Minha mulher, Alice, tem a estranha propensão de limitar nossa família a três refeições por dia”. A graça está no fato de que a “propensão” de Alice não é extravagante, mas é contemplada por Calvin como se fosse um hábito exótico.
Alice é situada e mantida numa alteridade rigorosa, em que é impossível distinguir qualidades e defeitos: Calvin a ama e admira como a gente contempla, fascinado, uma espécie desconhecida num documentário do Discovery Channel. Se amo e admiro o outro por ele ser diferente de mim (e não apesar de ele ser diferente de mim), não posso considerar que minha maneira de ser seja a única certa. Se Calvin acha extraordinário que Alice acredite na virtude de três refeições diárias, ele pode continuar petiscando o dia todo, mas seu hábito lhe parecerá, no fundo, tão estranho quanto o de Alice.
Com isso, Calvin e Alice transformaram sua vida de casal numa aventura fascinante: a aventura de sempre descobrir o outro, cuja diferença inesperada nos dá, de brinde, a certeza de que nossa obstinada maneira de ser, nossos jeitos e nossa neurose não precisam ser uma norma universal, nem mesmo a norma do casal. Há quem diga que o parceiro ideal é aquele que nos faz rir. Trillin completou a fórmula: Alice era quem conseguia fazê-lo rir dele mesmo. Com isso, ele descobriu a receita do amor que dura.
domingo, 7 de dezembro de 2008
NÃO SE COME UMA MULHER
Sou homem do durante. Do meio. Do decorrer. Nada contra quem pensa o contrário, mas é um pouco de soberba inaugurar ou fechar o mundo.
Quando se ama uma mulher, é preciso a safadeza, a vontade sem pudor, o desejo diabólico, a tara. Não se conter, não se represar. A ânsia, a violência e a obsessão são permitidas. Mas tudo será grosseria desacompanhada da pureza.
Pureza é autenticidade. Não fingir, não disfarçar, não dizer o que não está sentindo. Já ouvi muito que sexo não é seguir a cabeça e deixar as coisas aconteceram. Sexo seria não pensar. Não concordo, sexo não é inconseqüência, é conseqüência da gentileza. Conseqüência de ouvir o sussurro, de ser educado com o sussurro e permanecer sussurrando. Perder o pudor, não perder o respeito. Perder a timidez, não perder o cuidado.
Sexo é pensar, como que não? E fazer o corpo entender a pronúncia mais do que compreender a palavra. Como se não houvesse outra chance de ser feliz. Não a derradeira chance, e sim a chance.
Uma mulher está sempre iniciando o seu corpo. Toda a noite é um outro início. Toda a noite é um outro homem ainda que seja o mesmo. Não se transa com uma mulher pela repetição. Seu prazer não está aprendendo a ler. Seu prazer escreve - e nem sempre num idioma conhecido.
Ela pode ficar excitada com uma frase. Não é colocando de repente a mão na coxa. Ela pode ficar excitada com uma música ou com uma expressão do rosto. Não é colocando a mão na sua blusa. Mulher é hesitação, é véspera, é apuro do ouvido.
Antever que aquelas costas evoluem nas mãos como um giz de cera. Reparar que a boca incha com os beijos, que o pescoço não tem linha divisória com os seios, que a cintura é uma escada em espiral.
É comum o homem, ao encontrar sua satisfação, recorrer a uma fórmula. Depois de sucesso na intimidade, acredita que toda mulher terá igual cartografia, igual trepidação. Se mordiscar os mamilos deu certo com uma, lá vai ele tentar de novo no futuro. Se brincou de chamá-la de puta, repete a fantasia interminavelmente. Assim o homem não vê a mulher, vê as mulheres e escurece a nudez junto do quarto.
Amar não é uma regra, e sim onde a regra se quebra.
Não se come uma mulher, ela é que se devora.
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
A SABEDORIA DE BERNARD SHAW
Frases de George Bernard Shaw, do livro “Socialismo para Milionários”:
Não há amor mais sincero que o da comida.
A minha especialidade é ter razão quando os outros não a têm.
Quando um tolo pratica um ato de que se envergonha, declara sempre que fez o seu dever.
Quem nunca esperou não pode desesperar nunca.
Uma vida inteira de felicidade? Ninguém agüentaria: seria o inferno na terra.
O pior crime para com os nossos semelhantes não é odiá-los, mas demonstrar-lhes indiferença: é a essência da desumanidade.
Há duas tragédias na vida: uma, a de não alcançarmos o que o nosso coração deseja; a outra, de alcançá-lo.
Os ingleses nunca hão de ser escravos: eles são livres de fazer tudo o que o Governo e a opinião pública lhes permitem fazer.
(Jogo de xadrez) É um expediente tolo para fazer com que pessoas preguiçosas acreditem que estão fazendo algo muito inteligente, quando estão apenas perdendo tempo.
O lar é a prisão da moça e o hospício da mulher.
O martírio… é a única maneira de ganhar fama sem ter competência.
Quem deseja uma vida feliz com uma mulher bonita assemelha-se a quem quisesse saborear o gosto do vinho tendo a boca sempre cheia dele.
Não faças aos outros o que queres que te façam; os gostos deles podem ser diferentes dos teus.
Neste mundo sempre há perigo para aqueles que o temem.
Há apenas uma única religião, embora dela exista uma centena de versões.
Nunca espero nada de um soldado que pensa.
Sou abstêmio apenas de cerveja, não de champanha.
Não gosto de sentir-me em casa quando estou no estrangeiro.
domingo, 30 de novembro de 2008
Água, Amor e Deus
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
Mulher - Um Bicho Estranho
Texto escrito em 26/09/2002.
“Que coisa feia! Mas que coisa feia! Muito feia...” – era ssim que ele falava com ela. E a medida que ele ia falando o quao “feia” ela era, ela ia virando sua carinha, de um lado pro outro, depois a colocava entre as suas patas e tentava se esconder, como se estivesse muito envergonhada.
Ela era como uma cadela dócil. Jamais fez qualquer gesto hostil, jamais rosnou. Ela sempre estava lá, deitada perto da poltrona, cabeça apoiada entre as pernas, esperando por um afago do seu único e amado dono.
Ele era o único que sabia que sua amada era como uma cadela. Era uma relação tao íntima que as pessoas não se apercebiam desse animal que existia dentro dessa mulher. Mas ele, com seus olhos de dono, sabia discernir esse bicho que havia dentro dela. Um bicho do mato?
Ela era uma potranca também. Uma vez seu dono explicou a seu amigo o que era essa relação:
"É assim. Os cavalos selvagens são domados. Transformam-se em cavalos mansos, bons para serem montados. Acho que essa relação é assim. A mulher é potranca selvagem, indomável. Até o momento em que nos apaixonamos por essa mulher. Ela fica mansa de repente, e nos pede: ‘Pode me montar’... Depois de aceito o convite, põe arreio, freio, rabicho, aperta a barrigueira, calça esporas e monta. Dai a gente cavalga. Na verdade a alma selvagem ainda está presente dentro da potranca, e é por isso que ela acaba levando seu dono a lugares onde ele jamais teria ido sozinho. Lugares que ela também nao teria ido se nao fosse por ele.”
Ela era também um bicho desconhecido. Guaxinim. Muito raro, habitante das florestas virgens. Dotado de uma juba tao macia e fofa quanto a sua pelagem, o Guaxinim é o bicho mais dengoso e carente que existe. Por isso seu dono sabia que essa espécie em extinção tinha de ser muito bem cuidada. Ração especial. Relação especial.
Quando ele a olhava, via-se rodeado de um zoológico. Quantos animais dentro de sua amada esposa! E ele sabia lidar com cada um deles. Vai ver que foi por isso que ela jamais amou outra pessoa como o amou. Era notável.
Pois é. Dizem com razão que mulher é um bicho estranho.
quarta-feira, 9 de julho de 2008
AMOR DE CACHORRO
"Parece-lhe é que o casal humano foi criado de tal forma que o amor do homem e da mulher é a priori de uma natureza inferior àquela que pode ter (pelo menos na melhor das suas variantes) o amor entre o homem e o cão, essa estranha coisa da história do homem que o Criador certamente não previu.
É um amor desinteressado: Tereza não quer nada de Karenine. Nem sequer exige que ele a ame. Nunca se atormentou com as perguntas que torturam os homens e as mulheres: Gostará ele de mim? Já terá amado alguém mais do que me ama a mim? Amar-me-á mais do que eu o amo? Todas essas interrogações que questionam o amor, que o medem, o perscrutam, o inspeccionam, não se arriscarão a matá-lo na casca? Se somos incapazes de amar, talvez seja por desejarmos ser amados, ou seja, por queremos alguma coisa do outro (o seu amor), em vez de chegarmos junto dele sem reivindicações e não querermos senão a sua simples presença.
E ainda há mais uma coisa: Tereza aceitou Karenine tal e qual como ele é, não tentou modificá-lo, deu a sua anuência prévia ao seu universo de cão, não quer confiscar-lho, não tem ciumes das suas tendências secretas. Se o educou, não foi com a intenção de modificá-lo (como um homem quer sempre modificar a sua mulher e uma mulher o seu homem), mas simplesmente para lhe ensinar a língua elementar que havia de permitir-lhes compreenderem-se e viverem os dois juntos.
E também: o seu amor pelo cão é um amor voluntário, ninguém a obrigou a isso.
Mas sobretudo: nenhum ser humano pode presentear outro com um idílio. Só o animal pode fazê-lo porque não foi expulso do Paraíso. O amor entre o homem e o cão é idílico. É um amor sem conflitos, sem cenas dilacerantes, sem evolução."
A Insustentável Leveza do Ser - Milan Kundera, pág. 337, 338
terça-feira, 8 de julho de 2008
Somente amamos o que desconhecemos
"A única coisa que realmente temos são os nossos pensamentos e não os pensamentos dos outros.
A memória não se realiza no "tomar notas" num cadernos. Seu lugar é outro. Quem disse uma teoria da memória da forma mais curta é a minha querida Adélia Prado: " Aquilo que a memória ama fica eterno".
É o amor que eterniza o saber.
Estava errado o magnífico Leonardo Da Vinci que disse que só podemos amar o que conhecemos. Dentre todos os milhões de objetos de conhecimento que me cercam, como escolher aquele que vou conhecer para depois amar? A busca seria infinita. A verdade é o oposto. Quando um objeto me fascina - e é isso que caracteriza uma relação amorosa, o fascínio - então eu me debruço sobre ele para conhecê-lo. Não é por acidente que os escritores sagrados tenham usado o verbo "conhecer" para se referir ao que acontece entre os amantes
O mestre não é aquele que anuncia saberes. é aquele que seduz os seus aprendizes para o fascínio do mundo.
Aprendemos porque queremos "fazer amor" com um objeto. Um pianista aprende as dificuldades da técnica para fazer amor com o piano. Um enxadrista aprende as imensas estratégias e variações do jogo para fazer amor com o tabuleiro e as peças."
Rubem Alves
É a pura verdade. Quando achamos que conhecemos, perdemos o interesse.
Por isso o sexo diminui num casamento entre duas pessoas. A ânsia, a paixão, a vontade louca de fazer amor vai embora. Aí você começa a perceber como os defeitos da pessoa que você tanto desejava agora te irritam. Fazer amor vira uma tarefa trabalhosa.
Isso me assusta, porque sempre pensei num amor eterno, que tivesse uma chama que nunca se apagaria.
Pensando muito sobre o assunto no dia de hoje, acho que tudo é uma questão de foco. Não dá pra viver a vida focada em uma pessoa. Aliás, em nenhuma pessoa. O melhor foco seria Deus, algo que jamais conheceremos face-a-face aqui na terra. Assim a cenoura é posta diante do burro, que pensa que um dia vai alcançá-las, mas sua função é somente fazê-lo continuar a caminhar pela vida toda. Algo inatingível. Porque com certeza se o burro comer a cenoura, ele vai achar ela sem graça e vai querer comer algo que ele nunca comeu, como por exemplo, uma berinjela. E assim a estória vai se repetindo até ele comer todas as variedades de legumes e frutas existentes no mundo sem chegar a se saciar jamais!
Nesse círculo de significado pra minha existência, eu acabo me pegando sozinha, com meu coração palpitando freneticamente, batendo violentamente por um significado que ele ainda nao conhece. Ele clama por algo que deseja imensamente amar e se entregar. Por que ele não me dá sossego?
Talvez porque chegou a hora de ser mãe. Acho que só assim vou acalmar essa minha existência medíocre e sem sentido. Acho as mulheres mais afortunadas do que os homens. Pelo menos temos uma função pré-definida pra nossa existência: ser mãe.
"As separações, quaisquer separações, são sempre metáforas da Grande Separação."
A saudade e a morte são irmãs. A saudade é um modo de nos prepararmos para a morte de alguém querido. Por isso as distâncias existem, por isso as separações são reais, por mais que nao a queiramos. Conviver com saudade de alguém é algo ruim. Mas te ensina que a vida é irracional e que você pode viver, mesmo sem aquela pessoa. Apesar de seu coração dizer o oposto.
Por esta razão, qualquer separação é uma metáfora da morte. Isso é muito poético e nunca tinha me dado conta até então. Sofremos de saudade. Quanto mais intenso o amor, maior a saudade....e maior a dor.
Por que precisamos da morte? Porque seria muito chato viver pra sempre. É como se o seu filme preferido nunca acabasse. Chato. Certamente deixaria de ser seu filme preferido. Toda grande estória de amor tem início, meio e fim. E a morte sela com perfeição o final. Essa é a verdade. Lembra de "Romeu e Julieta"? O amor eternizado pela morte. Imagina se eles não tivessem morrido. Romeu, gordo, roncando na cama. E Julieta, suada e coberta de óleo de tanto cozinhar, catando as roupas que Romeu largou pelo chão, enquanto seu filho caçula chora na barra da saia da nada romântica Julieta. Que horror. Ninguém quer isso. Foi o desfecho perfeito a morte de Romeu e Julieta. Amor eterno!
O mesmo no filme "Thelma & Louise", quando no final as duas, dentro de um conversível, se jogam em um precipício. Fantástico. Amizade eternizada. Imagina se elas resolvem se entregar pra polícia? Corta pra cena na corte de julgamento. Prisão perpétua pra Thelma e corredor da morte pra Louise. Estaríamos eternizando o sistema social. Nada emocionante. Gostamos de romantizar tudo. E a morte é o ápice do romantismo.
A morte nos trás um sentimento de valorização urgente. Mesmo que a pessoa tenha sido um crápula. De uma hora pra outra se torna um santo só porque bateu as botas. Comportamento típico do ser-humano, que valoriza tudo o que nao pode ter. A saudade nos ajuda a valorizar, e as vezes, até super-valorizar quem está longe. Daí quando o ente querido retorna, a super-valorização desaparece. Por que somos assim? Bizarro. Gostamos do intangível, do impossível, do impensável e de tudo aquilo que nao podemos ter.
quinta-feira, 3 de julho de 2008
Ser homem ou mulher
A anatomia é o destino? Talvez, mas há lugares em que a mulher pode escolher ser homem
NOS ANOS 1960, "descobrimos" que a identidade de cada gênero, masculino, feminino ou outro (há outros, sim), era construída e imposta pela cultura em que vivíamos. Ou seja, nosso sentimento íntimo de ser homem ou mulher dependia dos valores que nos eram transmitidos: "alguém" nos oferecera bonecas ou soldados e nos propusera futebol ou costura.
A descoberta encorajou a militância igualitária, os papéis sociais de homens e mulheres se aproximaram e, enfim, tornou-se possível sentir-se homem e cuidar das crianças ou fazer bordado, e sentir-se mulher e pensar na vida profissional ou entrar no exército. Isso, sem que ninguém se atormentasse com dúvidas excessivas sobre sua identidade viril ou feminina.
Nas últimas décadas, houve um refluxo: hoje, sentir-se homem ou mulher nos parece ser, antes de mais nada, um efeito da diferença biológica entre os sexos.
Talvez seja por causa das próprias mudanças que mencionei acima: as diferenças culturais entre gêneros se tornaram menos relevantes e procuramos outras, mais "sólidas".
Mas muitos dirão que aconteceu o seguinte: os avanços da ciência mostraram que, na constituição das identidades de gênero, hormônios, genes etc. contam mais do que as palavras e os comportamentos. Ou seja, pouco importa que eu vista você de renda ou de farda, você será ou se sentirá homem ou mulher como mandam a química e a física de seu corpo.
Paradoxalmente, essa posição, que pretende ser materialista, parece apostar na separação de corpo e mente, como se um mundo "real" de genes e hormônios existisse separado do da fala e dos atos da gente (que, cá entre nós, não é menos real). Acho mais provável que haja um mundo só, em que interagem fenômenos descritos de jeitos diversos, mas que pertencem a uma única realidade, a nossa, feita de descargas hormonais, obrigações indumentárias e comportamentais, genes, xingões, chapoletadas, neurotransmissores, conselhos, amores e carícias.
Além disso, é bom não esquecer que a primazia atual das explicações "anatômicas" é, por sua vez, um fato cultural. Ela é a evolução esperada da cultura ocidental moderna, que promove, dessa forma, sua melhor idéia: a de uma humanidade comum a todos, além das diferenças culturais. Por exemplo, para justificar a existência de direitos humanos universais, nada melhor do que uma definição da espécie a partir da biologia comum e não das culturas, que divergem.
Seja como for, o clima de hoje sugere que a anatomia seja o destino. Nesse quadro, é bom meditar sobre um extraordinário artigo de Dan Bilefsky, no "New York Times" de 25 de junho (em www.nytimes.com, procurar "Woman as Family Man"). Bilefsky viajou pelas montanhas do norte da Albânia, onde sobrevivem os restos de uma cultura tradicional, regida por um cânon rigoroso que, entre outras coisas, prescreve a vendeta entre famílias, de geração em geração: vocês matam um dos nossos, nós mataremos um dos seus -sendo que só podem matar e ser mortos os homens das respectivas famílias. "Abril Despedaçado", de Ismail Kadaré (Companhia das Letras), dá uma boa idéia do clima local. Quem não leu pode assistir ao filme homônimo, de Walter Salles, que transpôs o romance de Kadaré para o norte do Brasil no começo do século 20.
Pergunta: o que acontecia, numa cultura como essa, quando só sobravam as mulheres de uma família? Pois é, no caso, encorajada pelo fato de que, nessa cultura, ser mulher era especialmente chato, uma virgem, livremente, podia decidir ser homem. Ela cortava o cabelo, vestia-se de homem, carregava faca e arma, sentava-se com os homens e com eles rezava na mesquita, matava e era morta nas vendetas e tornava-se patriarca da família.
Belefsky encontrou e fotografou várias mulheres-homens, na faixa dos 80 anos, mulheres que, 60 anos atrás, virgens, renunciaram à vida sexual e decidiram ser homens. E, de fato, sentiram-se e foram homens. Na verdade, ainda são: no pleno exercício de seu patriarcado.
O que assombra nessa história, aliás, não é só a construção cultural do gênero, mas a incrível liberdade que se revelava possível numa sociedade estritamente tradicional (a gente pensa, em geral, que a liberdade de escolha seja coisa exclusivamente nossa).
Queria prestar homenagem a Ruth Cardoso. O jeito foi escrever sobre algo que, onde quer que ela esteja hoje, talvez a interesse.
quarta-feira, 2 de julho de 2008
Meu Cavalo Selvagem
De repente eu estava diante do cavalo mais lindo e mais selvagem que eu nunca poderia ter imaginado um dia encontrar. Ele saiu dos meus sonhos direto pra minha vida. Eu estava em êxtase!
Devagar, pra não assustá-lo, me aproximava, por entre as moitas e árvores, pisando devagar sobre as folhas secas pra não fazer muito barulho. Quase não podia conter minha alegria. Então eu estava lá, naquele lugar abençoado, todos os dias. Só o fato de poder vê-lo, fazia com que meu coração batesse forte dentro do peito. Sabia que seria pra sempre.
Mas como fazer com que ele não tivesse medo de mim? Talvez medo iria embora se ele se acostumasse com minha presença. Então fiquei alí, por muitos anos, esperando pacientemente que ele viesse até mim. Por muitas vezes achei que ele não viria, que tudo aquilo era somente invenção da minha cabeça. Talvez ele não gostasse de mim e nem me queria alí. Só o tempo iria dizer.
Se fosse só pra olhá-lo pelo resto da minha vida, já seria o suficiente pra mim. Saber que ele existia já era uma dádiva. De tanto observá-lo, passei a conhecê-lo. Sabia o que ele gostava de comer e quando estava triste ou alegre. Sabia onde bebia água e onde gostava de cavalgar nas planícies.
Um dia eu não pude mais ir ao lugar do nosso encontro. Os afazeres da vida me distraíram. Fiquei afastada por um longo tempo, mas nunca deixei de pensar em como ele estava. Aos poucos ele foi se transformando numa lembrança boa. Uma saudade que gostava de sentir, sempre acompanhada de um sorriso em meus lábios.
Foi quando acordei um dia, e ao abrir minha janela, do outro lado da cerca, há alguns metros de minha casa, ví sua figura poderosa e afoita. Ele veio me procurar! E quando nossos olhares se encontraram, ele fugiu pra dentro da floresta.
Corri como louca até nosso local de encontro. E lá estava ele, ofegante, me aguardando. Devagar estendí minha mão. Relutante ele se aproximou e cheirou meus dedos. Logo depois eu pude acariciar as suas longas crinas. Foi um momento que durou a eternidade.
Sem rédeas, sem sela, somente a pêlo, eu agarrava em suas crinas ele me levava pra cavalgar. Sentia o vento bater no meu rosto. Felicidade pura!
Sem medo de nunca mais voltar, ele me levou a lugares onde sempre sonhei em ir e me mostrou coisas lindas que nunca sonhei em ver.
quinta-feira, 26 de junho de 2008
É EXATAMENTE ISSO QUE AS MULHERES QUEREM...
Texto de Fabricio Carpinejar
terça-feira, 24 de junho de 2008
quinta-feira, 20 de março de 2008
quarta-feira, 19 de março de 2008
FRASES DE PAULO FRANCIS
Adoro Paulo Francis. Por isso separei as minhas frases preferidas, como exercício diário de meditação e reflexão.
"Apenas os idiotas não se contradizem."
'"Quem não lê não pensa, e quem não pensa será para sempre um servo."
"A ignorância é a maior multinacional do mundo."
"Bebo para tornar as outras pessoas mais interessantes."
"Intelectual não vai a praia. Intelectual bebe."
"Não há quem não cometa erros e grandes homens cometem grandes erros."
E OS SÁBIOS DIZEM: AMÉM.
terça-feira, 18 de março de 2008
SE EU SOUBESSE....
Era uma vez, numa terra muito distante, uma linda princesa,
independente e cheia de auto-estima que, enquanto contemplava a natureza e pensava em como o maravilhoso lago do seu castelo estava de acordo com as conformidades ecológicas, se deparou com uma rã. Então, rã pulou para o seu colo e disse:
- Linda princesa, eu já fui um príncipe muito bonito. Uma bruxa má lançou-me um encanto e eu transformei-me nesta rã asquerosa. Um beijo teu, no entanto, há de me transformar de novo num belo príncipe e poderemos casar e constituir um lar feliz no teu lindo castelo. A minha mãe poderia vir morar conosco e tu poderias preparar o meu jantar, lavarias as minhas roupas e minhas cuecas, limparias nosso castelo, cuidarias para que eu nunca me aborrecesse com nada, criarias os nossos filhos, cuidarias da nossa saúde e viveríamos felizes para sempre...
Naquela noite, enquanto saboreava pernas de rã à sautée, acompanhadas de um cremoso molho acebolado e de um finíssimo vinho branco, a princesa sorria e pensava: Nem Fudendo!
Luis Fernando Veríssimo
quarta-feira, 12 de março de 2008
TEMAS PARA SE DISCUTIR EM BOTECO: FÍSICA QUÂNTICA
"Física Quântica: é a teoria que descreve o comportamento da matéria na escala do "muito pequeno", ou seja, é a física dos componentes da matéria; átomos, moléculas e núcleos, que por sua vez são compostos pelas partículas elementares. Tudo indica que a física quântica seja a teoria correta para descrever os fenômenos físicos em qualquer escala de energia. O universo macroscópico (que é o nosso mundo real, com as árvores, pessoas e animais) só seria um caso particular para o qual há uma forma mais eficiente de descrição.
Apesar da sua estranheza, a mecânica física não apresentou qualquer falha desde que foi elaborada na década de 20, o que não nos proporciona evidência experimental que aponte para onde buscar as questões capazes de derrubá-la." Fonte: Amir O. Caldeira - é professor do Instituto de Física Gleb Wataghin da Unicamp
Tudo o que acontece nesse mundo microscópico dos átomos, moléculas e núcleos pode ser aplicado ao nosso mundo macroscópico. É aí que a aventura começa. Na Física Quântica existem inúmeros fenômenos estranhos. Desde um elétron transitar por duas dimensões até a mudança de comportamento só porque alguém está observando esse comportamento.
As formas eletromagnéticas tem comportamento dual. Elas se comportam segundo seu observador.
Não entendeu? Garçom!!!!
Os cientistas descobriram que as leis fundamentais da física não fazem distinção entre passado, presente e futuro. Pense num átomo. Pensamos que é uma bola sólida. Mas na verdade é esse pontinho pequeno com matéria densa no centro, cercado por uma nuvem de elétrons que aparecem e desaparecem. Ninguém sabe exatamente pra onde eles vão.
Até o núcleo, que pensávamos ser tão denso, aparece e desaparece assim como os elétrons. A coisa mais sólida que pode existir nessa matéria desprovida de substância é um pensamento, um bit de informação concentrada. O que faz as coisas são idéias, conceitos e informação.
E mais bizarro ainda é você pensar que ninguém toca em nada. Sim. Você nunca toca em nada. Os elétrons criam uma carga que afasta os outros elétrons antes do toque.
Uma partícula, que pensamos ser algo sólido, existe no que chamamos de superposição (estar em dois ou mais lugares ao mesmo tempo), espalhando uma onda de possíveis localizações, todas ao mesmo tempo. E quando você olha, ela passa a estar em apenas uma das possíveis posições.
O mundo tem várias formas de realidade em potencial, até você escolher a que quer. Pode-se estar em muitos lugares ao mesmo tempo, experimentando várias possibilidades, até elas convergirem para apenas uma.
Pense nos átomos não como objetos, mas como tendências. É um mar de possibilidades!
Podemos escolher nossa realidade!
Referência: "Quem Somos Nós"
domingo, 2 de março de 2008
TEMAS PARA SE DISCUTIR EM BOTECO: METAFÍSICA
"Metafísica (do grego μετα [meta] = depois de/além de e Φυσις [physis] = natureza ou físico) é um ramo da filosofia que estuda a essência do mundo. A saber, é o estudo do ser ou da realidade. Se ocupa em procurar responder perguntas tais como: O que é real ? O que é natural ? O que é sobrenatural ? O ramo central da metafísica é a ontologia, que investiga em quais categorias as coisas estão no mundo e quais as relações dessas coisas entre si. A metafísica também tenta esclarecer as noções de como as pessoas entendem o mundo, incluindo a existência e a natureza do relacionamento entre objetos e suas propriedades, espaço, tempo, casualidade, e possibilidade."
FONTE: WIKIPEDIA
Não pensem que entendo muito sobre o assunto. Pelo contrário, sou leiga. Mas a Metafísica é fascinante porque nos leva a pensar em muitas possibilidades. O que sabemos não é necessariamente o que é verdade. O que os nossos olhos vêem não é exatamente o que é real. Já sentei em mesas de botecos com alguns amigos e lá a gente falou das nossas variadas percepções sobre o que a realidade, a natureza e o sobrenatural poderia ser.
É um tema que só filósofos, estudiosos, escritores e bêbados conseguem dominar.
Jorge Luís Borges discorre muito bem sobre esse assunto, dizendo que Platão deu forma esférica ao mundo e julgava que o movimento dos corpos celestes era espontâneo e voluntário. Também disse que o renascentista Giordano Bruno considerava os planetas “grandes animais tranqüilos, de sangue quente e hábitos regulares, dotados de razão”; e que o teólogo Orígenes defendia que “os bem-aventurados ressuscitariam em forma de esferas e entrariam rolando na eternidade”.
Essa última me fez rir bastante. Gostaria de me sentar em um boteco com Jorge Luís Borges. Eu já havia pensado em muitas teorias como essa. A teoria que mais gosto é que esse mundo é como aquele jogo SIMS. Na verdade você está jogando em outra dimensão, mas não sabe. Só vai descobrir quando morrer. Game Over!
Meus amigos preferem ficar com a versão de Matrix. Seja o que for, a realidade não é exatamente o que estamos vendo. Disso eu tenho certeza....por isso esse tema só pode ser discutido em botecos....e em blogs, é claro.
sábado, 1 de março de 2008
A DOENÇA DA MINHA ALMA
Me disseram que estou doente desde que nascí.
Que muitas são as deformidades da minha alma.
Viver seria um fardo. Respirar seria um transtorno.
Pensar nas coisas que escolhi era como morrer a cada segundo.
Não quis mais pensar.
Pensar doia. Pensar levava minha alma ao sofrimento.
Mas era inevitável: tudo que se poderia pensar, eu pensava.
Isso era o mais aterrorizante da minha condição.
Não tinha como dizer: "Pensamento! Desde ponto em diante você não pode mais ir!"
Ele vai. Me dá os ombros. E vai, como se eu não fosse a senhora dele.
Ele percorria lugares onde tinha medo de ir.
Não queria que fosse lá. Mas ele ia.
E quando voltava, voltava cheio de perguntas.
Como eu as respondia?
Ele me olhava como uma criança inocente, como se não fosse culpado de nada.
Ele me desesperava.
Um dia eu conseguí o impensável!
Prendí meu pensamento! Aos poucos eu o convencí de que era melhor estar dentro daquela gaiola.
Era uma linda e dourada gaiola. Havia pensamentos de muitas pessoas lá dentro.
Ele não estava só. No início foi bom.
Lá dentro tudo é mastigado e servido pra você.
Não faça força. Não se mova. Não se canse. Não sofra. Não pense.
Mas um dia ele se cansou. Cansou de não ser ele mesmo.
Ele queria ir a lugares onde a gaiola não permitia.
Então um dia, de fininho, sem que ninguém notasse, ele fugiu da gaiola.
E correu alegremente pelas planícies do desconhecido.
Mergulhou nas águas das possibilidades.
E voou bem alto, onde a imensidão de muitas perguntas sem respostas o esperavam.
Por isso eu adoecí. Estou doente de pensar. Doente de questionar.
Doente de mim mesma. Nunca fui tão feliz.


