quarta-feira, 9 de julho de 2008

AMOR DE CACHORRO

"Parece-lhe é que o casal humano foi criado de tal forma que o amor do homem e da mulher é a priori de uma natureza inferior àquela que pode ter (pelo menos na melhor das suas variantes) o amor entre o homem e o cão, essa estranha coisa da história do homem que o Criador certamente não previu.

É um amor desinteressado: Tereza não quer nada de Karenine. Nem sequer exige que ele a ame. Nunca se atormentou com as perguntas que torturam os homens e as mulheres: Gostará ele de mim? Já terá amado alguém mais do que me ama a mim? Amar-me-á mais do que eu o amo? Todas essas interrogações que questionam o amor, que o medem, o perscrutam, o inspeccionam, não se arriscarão a matá-lo na casca? Se somos incapazes de amar, talvez seja por desejarmos ser amados, ou seja, por queremos alguma coisa do outro (o seu amor), em vez de chegarmos junto dele sem reivindicações e não querermos senão a sua simples presença.

E ainda há mais uma coisa: Tereza aceitou Karenine tal e qual como ele é, não tentou modificá-lo, deu a sua anuência prévia ao seu universo de cão, não quer confiscar-lho, não tem ciumes das suas tendências secretas. Se o educou, não foi com a intenção de modificá-lo (como um homem quer sempre modificar a sua mulher e uma mulher o seu homem), mas simplesmente para lhe ensinar a língua elementar que havia de permitir-lhes compreenderem-se e viverem os dois juntos.

E também: o seu amor pelo cão é um amor voluntário, ninguém a obrigou a isso.

Mas sobretudo: nenhum ser humano pode presentear outro com um idílio. Só o animal pode fazê-lo porque não foi expulso do Paraíso. O amor entre o homem e o cão é idílico. É um amor sem conflitos, sem cenas dilacerantes, sem evolução."


A Insustentável Leveza do Ser - Milan Kundera, pág. 337, 338


terça-feira, 8 de julho de 2008

Somente amamos o que desconhecemos

"A única coisa que realmente temos são os nossos pensamentos e não os pensamentos dos outros.

A memória não se realiza no "tomar notas" num cadernos. Seu lugar é outro. Quem disse uma teoria da memória da forma mais curta é a minha querida Adélia Prado: " Aquilo que a memória ama fica eterno".

É o amor que eterniza o saber.

Estava errado o magnífico Leonardo Da Vinci  que disse que só podemos amar o que conhecemos. Dentre todos os milhões de objetos de conhecimento que me cercam, como escolher aquele que vou conhecer para depois amar? A busca seria infinita. A verdade é o oposto. Quando um objeto me fascina -  e é isso que caracteriza uma relação amorosa, o fascínio - então eu me debruço sobre ele para conhecê-lo. Não é por acidente que os escritores sagrados tenham usado o verbo "conhecer"  para se referir ao que acontece entre os amantes

O mestre não é aquele que anuncia saberes. é aquele que seduz os seus aprendizes para o fascínio do mundo.

Aprendemos porque queremos "fazer amor" com um objeto.  Um pianista aprende as dificuldades da técnica para fazer amor com o piano. Um enxadrista aprende as imensas estratégias e variações do jogo para fazer amor com o tabuleiro e as peças."

 

Rubem Alves


É a pura verdade. Quando achamos que conhecemos, perdemos o interesse.

Por isso o sexo diminui num casamento entre duas pessoas. A ânsia, a paixão, a vontade louca de fazer amor vai embora. Aí você começa a perceber como os defeitos da pessoa que você tanto desejava agora te irritam. Fazer amor vira uma tarefa trabalhosa.


Isso me assusta, porque sempre pensei num amor eterno, que tivesse uma chama que nunca se apagaria.


Pensando muito sobre o assunto no dia de hoje, acho que tudo é uma questão de foco. Não dá pra viver a vida focada em uma pessoa. Aliás, em nenhuma pessoa. O melhor foco seria Deus, algo que jamais conheceremos face-a-face aqui na terra. Assim a cenoura é posta diante do burro, que pensa que um dia vai alcançá-las, mas sua função é somente fazê-lo continuar a caminhar pela vida toda. Algo inatingível. Porque com certeza se o burro comer a cenoura, ele vai achar ela sem graça e vai querer comer algo que ele nunca comeu, como por exemplo, uma berinjela. E assim a estória vai se repetindo até ele comer todas as variedades de legumes e frutas existentes no mundo sem chegar a se saciar jamais!


Nesse círculo de significado pra minha existência, eu acabo me pegando sozinha, com meu coração palpitando freneticamente, batendo violentamente por um significado que ele ainda nao conhece. Ele clama por algo que deseja imensamente amar e se entregar. Por que ele não me dá sossego? 


Talvez porque chegou a hora de ser mãe. Acho que só assim vou acalmar essa minha existência medíocre e sem sentido. Acho as mulheres mais afortunadas do que os homens. Pelo menos temos uma função pré-definida pra nossa existência: ser mãe.

"As separações, quaisquer separações, são sempre metáforas da Grande Separação."

A saudade e a morte são irmãs. A saudade é um modo de nos prepararmos para a morte de alguém querido. Por isso as distâncias existem, por isso as separações são reais, por mais que nao a queiramos. Conviver com saudade de alguém é algo ruim. Mas te ensina que a vida é irracional e que você pode viver, mesmo sem aquela pessoa. Apesar de seu coração dizer o oposto.

Por esta razão, qualquer separação é uma metáfora da morte. Isso é muito poético e nunca tinha me dado conta até então. Sofremos de saudade. Quanto mais intenso o amor, maior a saudade....e maior a dor.

Por que precisamos da morte? Porque seria muito chato viver pra sempre. É como se o seu filme preferido nunca acabasse. Chato. Certamente deixaria de ser seu filme preferido. Toda grande estória de amor tem início, meio e fim. E a morte sela com perfeição o final. Essa é a verdade. Lembra de "Romeu e Julieta"? O amor eternizado pela morte. Imagina se eles não tivessem morrido. Romeu, gordo, roncando na cama. E Julieta, suada e coberta de óleo de tanto cozinhar, catando as roupas que Romeu largou pelo chão, enquanto seu filho caçula chora na barra da saia da nada romântica Julieta. Que horror. Ninguém quer isso. Foi o desfecho perfeito a morte de Romeu e Julieta. Amor eterno!

O mesmo no filme "Thelma & Louise", quando no final as duas, dentro de um conversível, se jogam em um precipício. Fantástico. Amizade eternizada. Imagina se elas resolvem se entregar pra polícia? Corta pra cena na corte de julgamento. Prisão perpétua pra Thelma e corredor da morte pra Louise. Estaríamos eternizando o sistema social. Nada emocionante. Gostamos de romantizar tudo. E a morte é o ápice do romantismo.

A morte nos trás um sentimento de valorização urgente. Mesmo que a pessoa tenha sido um crápula. De uma hora pra outra se torna um santo só porque bateu as botas. Comportamento típico do ser-humano, que valoriza tudo o que nao pode ter. A saudade nos ajuda a valorizar, e as vezes, até super-valorizar quem está longe. Daí quando o ente querido retorna, a super-valorização desaparece. Por que somos assim? Bizarro. Gostamos do intangível, do impossível, do impensável e de tudo aquilo que nao podemos ter. 


quinta-feira, 3 de julho de 2008

Ser homem ou mulher

Achei marvilhoso esse texto de Contardo Calligaris.

Ser homem ou mulher

A anatomia é o destino? Talvez, mas há lugares em que a mulher pode escolher ser homem

NOS ANOS 1960, "descobrimos" que a identidade de cada gênero, masculino, feminino ou outro (há outros, sim), era construída e imposta pela cultura em que vivíamos. Ou seja, nosso sentimento íntimo de ser homem ou mulher dependia dos valores que nos eram transmitidos: "alguém" nos oferecera bonecas ou soldados e nos propusera futebol ou costura.
A descoberta encorajou a militância igualitária, os papéis sociais de homens e mulheres se aproximaram e, enfim, tornou-se possível sentir-se homem e cuidar das crianças ou fazer bordado, e sentir-se mulher e pensar na vida profissional ou entrar no exército. Isso, sem que ninguém se atormentasse com dúvidas excessivas sobre sua identidade viril ou feminina.
Nas últimas décadas, houve um refluxo: hoje, sentir-se homem ou mulher nos parece ser, antes de mais nada, um efeito da diferença biológica entre os sexos.
Talvez seja por causa das próprias mudanças que mencionei acima: as diferenças culturais entre gêneros se tornaram menos relevantes e procuramos outras, mais "sólidas".
Mas muitos dirão que aconteceu o seguinte: os avanços da ciência mostraram que, na constituição das identidades de gênero, hormônios, genes etc. contam mais do que as palavras e os comportamentos. Ou seja, pouco importa que eu vista você de renda ou de farda, você será ou se sentirá homem ou mulher como mandam a química e a física de seu corpo.
Paradoxalmente, essa posição, que pretende ser materialista, parece apostar na separação de corpo e mente, como se um mundo "real" de genes e hormônios existisse separado do da fala e dos atos da gente (que, cá entre nós, não é menos real). Acho mais provável que haja um mundo só, em que interagem fenômenos descritos de jeitos diversos, mas que pertencem a uma única realidade, a nossa, feita de descargas hormonais, obrigações indumentárias e comportamentais, genes, xingões, chapoletadas, neurotransmissores, conselhos, amores e carícias.
Além disso, é bom não esquecer que a primazia atual das explicações "anatômicas" é, por sua vez, um fato cultural. Ela é a evolução esperada da cultura ocidental moderna, que promove, dessa forma, sua melhor idéia: a de uma humanidade comum a todos, além das diferenças culturais. Por exemplo, para justificar a existência de direitos humanos universais, nada melhor do que uma definição da espécie a partir da biologia comum e não das culturas, que divergem.
Seja como for, o clima de hoje sugere que a anatomia seja o destino. Nesse quadro, é bom meditar sobre um extraordinário artigo de Dan Bilefsky, no "New York Times" de 25 de junho (em www.nytimes.com, procurar "Woman as Family Man"). Bilefsky viajou pelas montanhas do norte da Albânia, onde sobrevivem os restos de uma cultura tradicional, regida por um cânon rigoroso que, entre outras coisas, prescreve a vendeta entre famílias, de geração em geração: vocês matam um dos nossos, nós mataremos um dos seus -sendo que só podem matar e ser mortos os homens das respectivas famílias. "Abril Despedaçado", de Ismail Kadaré (Companhia das Letras), dá uma boa idéia do clima local. Quem não leu pode assistir ao filme homônimo, de Walter Salles, que transpôs o romance de Kadaré para o norte do Brasil no começo do século 20.
Pergunta: o que acontecia, numa cultura como essa, quando só sobravam as mulheres de uma família? Pois é, no caso, encorajada pelo fato de que, nessa cultura, ser mulher era especialmente chato, uma virgem, livremente, podia decidir ser homem. Ela cortava o cabelo, vestia-se de homem, carregava faca e arma, sentava-se com os homens e com eles rezava na mesquita, matava e era morta nas vendetas e tornava-se patriarca da família.
Belefsky encontrou e fotografou várias mulheres-homens, na faixa dos 80 anos, mulheres que, 60 anos atrás, virgens, renunciaram à vida sexual e decidiram ser homens. E, de fato, sentiram-se e foram homens. Na verdade, ainda são: no pleno exercício de seu patriarcado.
O que assombra nessa história, aliás, não é só a construção cultural do gênero, mas a incrível liberdade que se revelava possível numa sociedade estritamente tradicional (a gente pensa, em geral, que a liberdade de escolha seja coisa exclusivamente nossa).
Queria prestar homenagem a Ruth Cardoso. O jeito foi escrever sobre algo que, onde quer que ela esteja hoje, talvez a interesse. 

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Meu Cavalo Selvagem

De repente eu estava diante do cavalo mais lindo e mais selvagem que eu nunca poderia ter imaginado um dia encontrar. Ele saiu dos meus sonhos direto pra minha vida. Eu estava em êxtase!


Devagar, pra não assustá-lo, me aproximava, por entre as moitas e árvores, pisando devagar sobre as folhas secas pra não fazer muito barulho. Quase não podia conter minha alegria. Então eu estava lá, naquele lugar abençoado, todos os dias. Só o fato de poder vê-lo, fazia com que meu coração batesse forte dentro do peito. Sabia que seria pra sempre.


Mas como fazer com que ele não tivesse medo de mim? Talvez medo iria embora se ele se acostumasse com minha presença. Então fiquei alí, por muitos anos, esperando pacientemente que ele viesse até mim. Por muitas vezes achei que ele não viria, que tudo aquilo era somente invenção da minha cabeça. Talvez ele não gostasse de mim e nem me queria alí. Só o tempo iria dizer. 


Se fosse só pra olhá-lo pelo resto da minha vida, já seria o suficiente pra mim. Saber que ele existia já era uma dádiva.  De tanto observá-lo, passei a conhecê-lo. Sabia o que ele gostava de comer e quando estava triste ou alegre. Sabia onde bebia água e onde gostava de cavalgar nas planícies.


Um dia eu não pude mais ir ao lugar do nosso encontro. Os afazeres da vida me distraíram. Fiquei afastada por um longo tempo, mas nunca deixei de pensar em como ele estava. Aos poucos ele foi se transformando numa lembrança boa. Uma saudade que gostava de sentir, sempre acompanhada de um sorriso em meus lábios.


Foi quando acordei um dia, e ao abrir minha janela, do outro lado da cerca, há alguns metros de minha casa, ví sua figura poderosa e afoita. Ele veio me procurar! E quando nossos olhares se encontraram, ele fugiu pra dentro da floresta.


Corri como louca até nosso local de encontro. E lá estava ele, ofegante, me aguardando. Devagar estendí minha mão. Relutante ele se aproximou e cheirou meus dedos. Logo depois eu pude acariciar as suas longas crinas. Foi um momento que durou a eternidade.


Sem rédeas, sem sela, somente a pêlo, eu agarrava em suas crinas ele me levava pra cavalgar. Sentia o vento bater no meu rosto. Felicidade pura!


Sem medo de nunca mais voltar, ele me levou a lugares onde sempre sonhei em ir e me mostrou coisas lindas que nunca sonhei em ver.