segunda-feira, 20 de abril de 2009

Mentiras da Verdade

Texto de Fabrício Carpinejar

"Não é que acredito em minhas mentiras. Eu moro perto da verdade para poder visitá-la. A verdade só recebe visitas, ninguém é capaz de morar nela. Mesmo um santo, mesmo um pobre-diabo. A verdade torna a convivência insuportável. Há pensamentos que nasceram para permanecer pensamentos. Não contá-los não significa traição à lealdade.
Tomado da gula da franqueza e da sensação que poderia ser completamente transparente, partilhei muitos pensamentos à toa e me dei mal. Quem entendeu acreditava que estava acreditando naquilo. Pensamento é hipótese, não é uma crença. Existe uma mania de fixar ações e tendências onde reinava medos e inquietações. Até com Deus escondemos alguma coisa. Alguns escondem o próprio Deus."

quinta-feira, 26 de março de 2009

Chapeuzinho Vermelho

“Era uma vez (admitindo-se aqui o tempo como uma realidade palpável, estranho, portanto, à fantasia da história) uma menina, linda e um pouco tola, que se chamava Chapeuzinho Vermelho. (Esses nomes que se usam em substituição do nome próprio chamam-se alcunha ou vulgo). Chapeuzinho Vermelho costumava passear no bosque, colhendo Sinantias, monstruosidade botânica que consiste na soldadura anômala de duas flores vizinhas pelos invólucros ou pelos pecíolos, Mucambés ou Muçambas, planta medicinal da família das Caparidáceas, e brincando aqui e ali com uma Jurueba, da família dos Psitacídeos, que vivem em regiões justafluviais, ou seja, à margem dos rios. Chapeuzinho Vermelho andava, pois, na Floresta, quando lhe aparece um lobo, animal selvagem carnívoro do gênero cão e… (Um parêntesis para os nossos pequenos leitores — o lobo era, presumivelmente, uma figura inexistente criada pelo cérebro superexcitado de Chapeuzinho Vermelho. Tendo que andar na floresta sozinha, - natural seria que, volta e meia, sentindo-se indefesa, tivesse alucinações semelhantes.).
Chapeuzinho Vermelho foi detida pelo lobo que lhe disse: (Outro parêntesis; os animais jamais falaram. Fica explicado aqui que isso é um recurso de fantasia do autor e que o Lobo encarna os sentimentos cruéis do Homem. Esse princípio animista é ascentralíssimo e está em todo o folclore universal.) Disse o Lobo: “Onde vais, linda menina?” Respondeu Chapeuzinho Vermelho: “Vou levar estes doces à minha avozinha que está doente. Atravessarei dunas, montes, cabos, istmos e outros acidentes geográficos e deverei chegar lá às treze e trinta e cinco, ou seja, a uma hora e trinta e cinco minutos da tarde”.
Ouvindo isso o Lobo saiu correndo, estimulado por desejos reprimidos (Freud: “Psychopathology Of Everiday Life”, The Modern Library Inc. N.Y.). Chegando na casa da avozinha ele engoliu-a de uma vez — o que, segundo o conceito materialista de Marx indica uma intenção crítica do autor, estando oculta aí a idéia do capitalismo devorando o proletariado — e ficou esperando, deitado na cama, fantasiado com a roupa da avó.
Passaram-se quinze minutos (diagrama explicando o funcionamento do relógio e seu processo evolutivo através da História). Chapeuzinho Vermelho chegou e não percebeu que o lobo não era sua avó, porque sofria de astigmatismo convergente, que é uma perturbação visual oriunda da curvatura da córnea. Nem percebeu que a voz não era a da avó, porque sofria de Otite, inflamação do ouvido, nem reconheceu nas suas palavras, palavras cheias de má-fé masculina, porque afinal, eis o que ela era mesmo: esquizofrênica, débil mental e paranóica pequenas doenças que dão no cérebro, parte-súpero-anterior do encéfalo. (A tentativa muito comum da mulher ignorar a transformação do Homem é profusamente estudada por Kinsey em “Sexual Behavior in the Human Female”. W. B. Saunders Company, Publishers.) Mas, para salvação de Chapeuzinho Vermelho, apareceram os lenhadores, mataram cuidadosamente o Lobo, depois de verificar a localização da avó através da Roentgenfotografia. E Chapeuzinho Vermelho viveu tranqüila 57 anos, que é a média da vida humana segundo Maltus, Thomas Robert, economista inglês nascido em 1766, em Rookew, pequena propriedade de seu pai, que foi grande amigo de Rousseau.”

(Millôr Fernandes, “Chapeuzinho Vermelho”, em “Lições de um Ignorante”)

quarta-feira, 25 de março de 2009

Amor Grande

texto de Fabrício Carpinejar

Qualquer coisa que estraga em sua casa, minha mãe chama o Leonel.

Telhados, ar condicionado, piso, rachaduras, ventiladores de teto. Ele mora na mesma quadra e nunca demora a vir.

Enquanto cimentava a escada do pátio, Leonel levantava altivamente o rosto quando provocava a figura materna. Atento, gargalhava a cada disparo de afeto.

Ao guardar a pá e o carrinho de mão, confessou:
- Minha mãe morreu quando nasci. Vejo vocês e tenho saudade da saudade.

Partilho semelhante inveja. Quando vou sozinho a um restaurante, não canso de espiar as conversas de casais. Eu me interesso pelos assuntos mais frívolos. Ponho a mão no queixo, o guardanapo nos joelhos e admiro o espetáculo da intimidade. O amor que pode ser amor ali, acontecendo em minha frente entre descrições de trabalho e confissões de meio-dia. O amor ali, camuflado e prosaico, mas devidamente forte para atravessar a morte e prometer vida eterna mesmo que não tenha eternidade depois. Mesmo que um dos dois sequer acredite em Deus.

Há gente que faz o contrário de Leonel. Mata o amor no momento em que ele nasce.

Pois não pensem que todos querem um amor grande. Reclamam, mas não querem.

Há gente que diminui o amor de propósito para não sofrer com ele. Elabora uma versão para provar que ele não existiu. Deixam o amor escapar, sumir, desaparecer para não se atrapalhar. Há gente que até se convence que aquele amor grande não era devidamente grande.

Há gente que pede um amor pequeno, doméstico, que não desestruture seus hábitos. Um amor anão de jardim, um amor de balcão, de pé, rápido. Um amor minúsculo, sem acento, que não rivalize o amor próprio. Que esteja próximo mas não fale alto, que esteja perto mas não influencie, que seja chamado quando se tem vontade e seja desfeito quando não serve mais.

O amor grande não traz uma felicidade constante - é a principal cilada -, traz uma felicidade irregular, intensa, atávica, que voa muito mais alto do que o conforto. Na estabilidade, é fácil sair da felicidade e da tristeza. No amor, descobrimos o quanto podemos ser felizes, e incomoda ter que buscar mais felicidade. Descobrimos o quanto podemos também ser tristes, e incomoda que não sairemos da tristeza sem que o amor volte.

Há gente que não tem esperança para se arrepender. Que sente ciúme de não ter sido assim antes e não se permite não ser mais como antes. Que vai terminar o amor para não se mostrar incompetente. Que prefere adiar o julgamento a se abrir para a verdade. Que não perdoa no momento de se perdoar. Um amor miúdo vai ao psiquiatra de manhã e termina a relação de noite. O amor grande termina com psiquiatra de manhã e se reconcilia à noite.

Porque o amor grande é uma insanidade lúcida, nem os melhores amigos entendem, é detratar e se retratar com mais freqüência do que se gostaria. Amor é o excesso de responsabilidade, de encargo, confiado a quem nos acompanha. Oferecemos o que não conseguimos alcançar.

Sempre seremos menores do que ele, já que é o único que cresce na extinção. Minha mãe costuma dizer que casamos quando encontramos uma solidão maior do que a nossa - só assim saímos da própria solidão.

Há gente, sim, que muda de amor para não mudar de opinião, que muda de homem para não mudar sua rotina, que manda onde não vigora poder e dominação. Que culpa o amor por não dar conta dele, que ama já pedindo desculpa por não amar.

O amor grande não é um grande amor.

Há gente, eu conheço, que desperdiça a chance do amor grande porque há apenas uma chance para amar grande. Muitas chances dentro de uma chance. O resto são disfarces, suturas, apoios.

Amor grande seria insuportável duas vezes nesta vida. Ou a gente se apequena para receber esse amor ou permanece se engrandecendo para não aceitá-lo.

quinta-feira, 19 de março de 2009

quinta-feira, 5 de março de 2009

O deus que não é Deus

texto de Ricardo Gondim

Existe um deus que não é Deus. O único com força para enfrentar a Deus. Essse deus não vive em alguma dimensão cósmica ou ponto do universo. Seu oratório é a mente humana. Ele é um deus familiar, pois vive nos espelhos da alma. Mesquinho, cobra desempenhos impossíveis. Inclemente, castiga as inadequações dos fracos com fúria. Ofendido por uma pessoa, dizima gerações inteiras. Imprevisível, age com um humor indetectável.

Existe um deus que não é Deus. Capaz de ofuscar o próprio Deus, misturou-se em todas as religiões. Sanguinário, exige sacrifício para estender a sua compaixão. Impassivo, privilegia os eleitos e condena o resto. Indiferente, descarta a prece da criança quando não se encaixa em seus propósitos. Distante, volta as costas para os miseráveis em nome da coerência.

Existe um deus que não é Deus. É possível encontrá-lo nos paços sacerdotais, nas leis canônicas, nas teologias que o sistematizaram. Ele vingou na religião e a cúrias já mapearam as suas ações. Sem bondade, ele defende a virtude. Sem graça, faz apologia da verdade. Os cristão sabem que ele existe; já provaram o fel de sua justiça na Inquisição. O homem-bomba de hoje testemunha o seu furor para os muçulmanos. Ele aparece em cada campanha de oração pentecostal para mostrar como é difícil ganhar o seu favor.

Existe um deus que não é Deus. Ele é uma divindade que não suporta ver Jesus almoçando com pecadores, bebendo vinho perto de mulheres suspeitas, elogiando pagãos ou prometendo o Paraíso para gatunos. Esse deus precisa desaparecer, pois é um ídolo malvado. E só com a sua morte nascerá o Salvador.

Soli Deo Gloria.

Receita contra Ciúmes

Uma pesquisa muito interessante foi feita pelo "British Journal of Social Psychology". Eles pesquisaram o ciúme dos casais que praticavam suingue (troca de casais na prática do sexo). A questão era: como eles administram o ciúme?

O resultado: casais que praticam suingue transformam seu ciúme em excitação sexual. Essa transformação é mais fácil para o homem; na mulher, a visão do parceiro nos braços de outra produz facilmente insegurança. Mas como é mantida a confiança? Simples: através da sinceridade. Ninguém está sendo "traído". É tudo consentido. Partilhar da mesma fantasia sexual, no caso o suingue, é outro laço poderoso entre os casais.

Pensando nesses resultados, podemos pelo menos elaborar uma receita contra o ciúme:
1 - Que as infidelidades sejam reveladas antes de se consumarem.
2 - Que os casais compartilhem um sonho - pode ser qualquer coisa, pular de paraquedas, transar numa praia deserta ou até mesmo a prática de suingue.

E aqui deixo a frase de Calligaris: "Enfim, uma infidelidade não é razão para acabar com uma relação. No máximo, é razão para perguntar-se se a relação vale a pena."

Fonte: Blog do Calligaris

quarta-feira, 4 de março de 2009

"Vicky Cristina Barcelona'

Desde que assistí "Vicky Cristina Barcelona", sempre me pego pensando nesse maravilhoso filme de Woody Allen.
Hoje encontrei esse texto que o Calligaris escreveu sobre o filme. Sensacional. Vale a pena ler e saber um pouco mais sobre o que é amor, o que é paixão e sobretudo, o que é amor-paixão.

texto de Contardo Calligaris

O amor-paixão é uma tentação irresistível, é o protótipo da vida intensamente vivida

"VICKY Cristina Barcelona", de Woody Allen, estreou no Brasil na semana passada. Com muita leveza e muito bom humor, o filme me levou a pensar nos percalços da vida amorosa.
A história do verão em Barcelona de Vicky e Cristina é um pequeno tratado do amor-paixão: os espectadores terão o prazer (ou desprazer) de se reconhecer em algum lugar do leque de experiências amorosas que o filme apresenta -é um leque pequeno, mas do qual escapamos pouco. Sem resumir, eis umas notas:

1) Os casais que se amam de paixão, cujos parceiros parecem ser feitos um para o outro, em regra, acabam tentando se matar -com faca, revólver ou qualquer outro instrumento (cf. Juan Antonio e Maria Emilia). É porque, se o outro me completa e vice-versa, o risco é que nenhum de nós sobreviva à nossa união -ao menos, não como ente separado e distinto. Mas, por mais que seja ameaçadora, a paixão amorosa é uma tentação irresistível (cf. Cristina, Vicky, Judy) por uma razão simples: nas narrativas de nossa cultura, ela é o protótipo ideal da experiência plena, da vida intensamente vivida.

2) Por sorte ou não, o amor-paixão é raro. A maioria de nós vive relações menos "interessantes" e menos fatais -relações em que a gente se preocupa em criar os filhos, decorar a casa, ganhar um dinheiro ou jogar golfe (cf. Vicky e Doug, Judy e Mark). Não seria tão mal, salvo pelo detalhe seguinte: em geral, nesses casais "normais", ao menos um dos parceiros vive com a sensação de que sua escolha amorosa é resignada, fruto de um comodismo medroso: "O outro não é bem o que eu queria; culpa minha, que não tive a coragem de me arriscar a amar..."

Detalhe: como o amor-paixão é um ideal cultural, não é preciso ter atravessado a experiência da paixão para idealizá-la (as más línguas diriam, aliás, que é mais fácil idealizá-la sem tê-la vivido em momento algum).

3) Os que parecem não idealizar o amor-paixão passam o tempo se protegendo contra ele. Deve ser por isto que a "normalidade" amorosa pode ser insuportavelmente chata: porque ela exige a construção esforçada de defesas contra a paixão -argumentos morais e sociais, sempre mais "razoáveis" do que racionais (cf. Mark, Doug). Num casal, quem critica a doidice da paixão não parece sábio aos olhos de sua parceira ou de seu parceiro; ao contrário, ele parece, quase sempre, pequeno e um pouco covarde (cf. Vicky e Doug, Judy e Mark).

4) A paixão não é uma coisa que a gente possa encontrar saindo pelo mundo como um turista da vida (cf. Cristina). Pois não basta esbarrar na paixão; ainda é preciso encará-la quando ela se apresenta.

Pode ser que, um dia, se ela conseguir matar Juan Antonio com um tiro certeiro, Maria Emilia seja internada ou presa. Pode ser que Juan Antonio seja um sujeito amoral e, por isso, perigoso. Pode ser que Vicky seja desesperadamente normal, trocando a chance de amar por uma casa num subúrbio norte-americano (estou sendo injusto com Vicky: na verdade ela tenta...).
Mas, para mim, a mais "patológica" de todas as personagens do filme é Cristina. Sua aparente abertura para a vida ("Ela não sabia o que queria, mas sabia o que não queria", narra a voz em off) é apenas uma versão "bonita" e literária de sua "insatisfação crônica" (diagnosticada por Maria Emília, com razão). Nisso, Cristina é muito próxima da gente: ela quer e consegue brincar com a paixão, mas sem perder a ilusão da liberdade ou o sonho do que ela poderia encontrar na próxima esquina.

Por isso, sua voracidade é a do turista: tira muitas fotos pelo mundo afora, mas será que ela se deixa tocar pela vida?

5) Disse que "Vicky Cristina Barcelona" trata dos percalços da vida amorosa com leveza e bom humor; de fato, saí do cinema sorrindo, e não era o único. Mas a amiga que me acompanhava comentou: "Adorei, mas é um filme triste". "Como assim?", estranhei. Ela respondeu, com razão: "É um filme triste porque os personagens se apaixonam, vivem sentimentos fortes, mas, no fim, tudo isso não transforma ninguém. Vicky e Cristina vão embora iguais ao que elas eram no começo, sobretudo Cristina...".

Minha amiga tinha razão. O amor e a paixão não nos fazem necessariamente felizes, mas são uma festa e uma alegria porque deles podemos esperar ao menos isto: que eles nos tornem um pouco outros, que eles nos mudem. Agora, nem sempre funciona...

terça-feira, 3 de março de 2009

Não se leve tão a sério...

“À humildade às vezes falta simplicidade, por causa dessa duplicação de si para si que ela supõe. Julgar-se é levar-se a sério demais. O simples não se questiona tanto assim sobre si mesmo. Porque se aceita como é? Já seria dizer demais. Ele não se aceita nem se recusa. Não se interroga, não se contempla, não se considera. Não se louva nem se despreza. Ele é o que é, simplesmente, sem desvios, sem afetação, ou antes — pois ser lhe parece uma palavra grandiosa demais para tão pequena existência –, faz o que faz, como todos nós, mas não vê nisso matéria para discursos, para comentários, nem mesmo para reflexão. Ele é como os passarinhos de nossa floresta, leve e silencioso sempre, mesmo quando canta, mesmo quando pousa. O real basta ao real, e essa simplicidade é o próprio real. Assim é o simples: um indivíduo real, reduzido à sua expressão mais simples. O canto? O canto, às vezes; o silêncio, mais frequentemente; a vida, sempre. O simples vive como respira, sem maiores esforços nem glória, sem maiores efeitos nem vergonha. A simplicidade não é uma virtude que se some à existência. É a própria existência, enquanto nada a ela se soma. Por isso é a mais leve das virtudes, a mais transparente e a mais rara. É o contrário da literatura: é a vida sem frases e sem mentiras, sem exagero, sem grandiloquência. É a vida insignificante, a verdadeira vida.
A simplicidade é o contrário da duplicidade, da complexidade, da pretensão. Por isso é tão difícil. Não é sempre dupla a consciência, que só é consciência de alguma coisa? Não é sempre complexo o real, que só é real pelo entrelaçamento em si das causas e das funções? Não é sempre pretensioso todo homem, assim que se esforça para pensar? Que outra simplicidade além da tolice? da inconsciência? do nada?
O homem simples pode não fazer essas indagações. O que não as anula, nem nos basta para resolvê-las. Simplicidade não é simploriedade. (…)”

(André Comte-Sponville, “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes”).

Não basta sonhar, é preciso ter coragem

Quando converso com minha mãe sobre certas escolhas que ela fez, tenho a certeza de que existe um tipo de tristeza que ela não deseja pra mim. Ela não quer que eu olhe meus desejos como se fossem apenas coisas insensatas demais para se realizarem. Acho que muitas vezes ela olhou dessa forma pros desejos dela mesma.

Quando ví o filme "Revolutionary Road" ("Foi apenas um sonho"), tive a perfeita noção do que a minha mãe estava tentando me dizer. Nascí e fui criada numa família onde o casamento "precisa" dar certo. Onde se renuncia tudo em nome do casamento. Tudo mesmo. Como a minha mãe fez. Quando olho pra vida dela, sinto um misto de admiração e dó. Admiração por ela ter sido capaz de se anular tanto por causa de meu pai. E dó, por saber que ela tem consciência agora, aos sessenta e poucos anos, de que a vida é uma só e que, talvez, toda a renúncia que ela fez não tenha valido a pena.

Não tenha valido a pena não por ela, mas porque ela nunca conseguiu fazer meu pai feliz. Nunca ví meu pai feliz, salvo os momentos de êxtase que duram muito pouco. Ele é irremediavelmente infeliz, quase que 24 horas por dia. Ranzinza, murmurador incansável. E a minha mãe pensou que poderia fazer um homem que sofre de "infelicidade crônica", um dia, ser feliz. Bom... todos precisam acreditar em alguma coisa. Mas acho que foi uma escolha errada, pois cada pessoa precisa "escolher" ser feliz. Não depende de terceiros a felicidade. Depende de si mesmo.

Me lembro de duas vezes, em duas rodoviárias diferentes, onde partí de volta para minha casa, deixando minha mãe sozinha, de pé, na rodoviária, me abanando tchau. A primeira vez foi em Ribeirão Preto, eu ainda fazia faculdade. Foi uma época difícil, onde minha mãe e meu pai se embrenharam em Palmas - Tocantins, para tentar a sorte (em vão) pela milésima vez. Esse era meu pai - sempre com uma idéia mirabolante na cabeça. Ela foi para Ribeirão, pois minha irmã morava lá e nos encontramos para matar a saudade. Chorei quando olhei pra ela, mal-vestida, de chinelo de dedo, cabelo sem tinta, castigada pelos desejos egocêntricos de meu pai. Chorei porque sabia que ela era que mais sofria quando nos separávamos. Os filhos sempre foram motivo de felicidade.

E a segunda vez, há poucos dias atrás, quando estava retornando de uma visita que fiz ao interior de São Paulo, onde meus pais residem. Acho que faz extamente uns 15 anos entre a primeira partida e a segunda. E com muita tristeza no coração ví que nada havia mudado. Era a mesma mulher, castigada pelos desejos de um homem que não sabe viver a vida, que não sabe valorizar essa mulher que cuidou dele a vida toda. "Teu pai está me matando, minha filha. Acho que vou partir antes do que ele." Ela me disse isso com lágrimas nos olhos.

Por favor, Mamãe, não vá. Fique. Aguente firme. Deixe que ele vá antes. E quando ele for, vou cuidar de ti. Eu prometo.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Medo de Ser???

“Com todo o perdão da palavra, eu sou um mistério pra mim. E eu suponho que me entender não seja uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato. E nem eu me entendo, pois sou infinitamente maior que eu mesma, eu não me alcanço. Mas eu fui obrigada a me respeitar, pelo fato de não me entender. Qual palavra me representa? Uma coisa eu sei: eu não sou o meu nome. Meu nome pertence aos que me chamam.”
–Clarice Lispector

Adoro esse trecho escrito pela Clarice Lispector. Explica tudo o que ninguém conseguiu explicar a respeito da alma feminina.
Recentemente, lí na Revista Época que uma pesquisadora chamada Meredith Chivers descobriu coisas interessantes a respeito das mulheres:

"Que as mulheres respondem a uma gama bem maior de estímulos do que havia sido demonstrado até então. Acreditava-se que a orientação sexual era determinante do que podia excitar a mulher. Ou seja, que as lésbicas ficariam excitadas apenas ao ver cenas de sexo entre duas mulheres e mulheres heterossexuais apenas com cenas de sexo entre um homem e uma mulher. Minha pesquisa mostrou que isso é verdade para os homens, mas não para as mulheres. As mulheres ficam fisicamente excitadas ao ver sexo entre seres de qualquer gênero. Também quis testar a excitação feminina por sexo entre não-humanos, por isso usei o filme com bonobos. Elas ficaram fisicamente excitadas, mas não declararam se sentir dessa forma.

Uma mulher heterossexual me escreveu contando como estava feliz de saber que era normal ficar com a vagina lubrificada ao ver duas mulheres juntas. Ela não precisava mais achar que tinha problemas com sua sexualidade. Parece ser muito típica da mulher essa preocupação. Mulheres lésbicas também estranham que outras lésbicas gostem de ver vídeos pornográficos com homens gays. Essa informação é bastante útil para a mulher normalizar suas experiências sexuais. Ter essa desconexão entre a resposta física e a mental é perfeitamente normal. Ficar fisicamente excitada por uma gama de coisas e não sentir desejo por elas também é."

Vai entender. Nem eu sabia que éramos tão complexas assim.