Me disseram que estou doente desde que nascí.
Que muitas são as deformidades da minha alma.
Viver seria um fardo. Respirar seria um transtorno.
Pensar nas coisas que escolhi era como morrer a cada segundo.
Não quis mais pensar.
Pensar doia. Pensar levava minha alma ao sofrimento.
Mas era inevitável: tudo que se poderia pensar, eu pensava.
Isso era o mais aterrorizante da minha condição.
Não tinha como dizer: "Pensamento! Desde ponto em diante você não pode mais ir!"
Ele vai. Me dá os ombros. E vai, como se eu não fosse a senhora dele.
Ele percorria lugares onde tinha medo de ir.
Não queria que fosse lá. Mas ele ia.
E quando voltava, voltava cheio de perguntas.
Como eu as respondia?
Ele me olhava como uma criança inocente, como se não fosse culpado de nada.
Ele me desesperava.
Um dia eu conseguí o impensável!
Prendí meu pensamento! Aos poucos eu o convencí de que era melhor estar dentro daquela gaiola.
Era uma linda e dourada gaiola. Havia pensamentos de muitas pessoas lá dentro.
Ele não estava só. No início foi bom.
Lá dentro tudo é mastigado e servido pra você.
Não faça força. Não se mova. Não se canse. Não sofra. Não pense.
Mas um dia ele se cansou. Cansou de não ser ele mesmo.
Ele queria ir a lugares onde a gaiola não permitia.
Então um dia, de fininho, sem que ninguém notasse, ele fugiu da gaiola.
E correu alegremente pelas planícies do desconhecido.
Mergulhou nas águas das possibilidades.
E voou bem alto, onde a imensidão de muitas perguntas sem respostas o esperavam.
Por isso eu adoecí. Estou doente de pensar. Doente de questionar.
Doente de mim mesma. Nunca fui tão feliz.
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