terça-feira, 3 de março de 2009

Não basta sonhar, é preciso ter coragem

Quando converso com minha mãe sobre certas escolhas que ela fez, tenho a certeza de que existe um tipo de tristeza que ela não deseja pra mim. Ela não quer que eu olhe meus desejos como se fossem apenas coisas insensatas demais para se realizarem. Acho que muitas vezes ela olhou dessa forma pros desejos dela mesma.

Quando ví o filme "Revolutionary Road" ("Foi apenas um sonho"), tive a perfeita noção do que a minha mãe estava tentando me dizer. Nascí e fui criada numa família onde o casamento "precisa" dar certo. Onde se renuncia tudo em nome do casamento. Tudo mesmo. Como a minha mãe fez. Quando olho pra vida dela, sinto um misto de admiração e dó. Admiração por ela ter sido capaz de se anular tanto por causa de meu pai. E dó, por saber que ela tem consciência agora, aos sessenta e poucos anos, de que a vida é uma só e que, talvez, toda a renúncia que ela fez não tenha valido a pena.

Não tenha valido a pena não por ela, mas porque ela nunca conseguiu fazer meu pai feliz. Nunca ví meu pai feliz, salvo os momentos de êxtase que duram muito pouco. Ele é irremediavelmente infeliz, quase que 24 horas por dia. Ranzinza, murmurador incansável. E a minha mãe pensou que poderia fazer um homem que sofre de "infelicidade crônica", um dia, ser feliz. Bom... todos precisam acreditar em alguma coisa. Mas acho que foi uma escolha errada, pois cada pessoa precisa "escolher" ser feliz. Não depende de terceiros a felicidade. Depende de si mesmo.

Me lembro de duas vezes, em duas rodoviárias diferentes, onde partí de volta para minha casa, deixando minha mãe sozinha, de pé, na rodoviária, me abanando tchau. A primeira vez foi em Ribeirão Preto, eu ainda fazia faculdade. Foi uma época difícil, onde minha mãe e meu pai se embrenharam em Palmas - Tocantins, para tentar a sorte (em vão) pela milésima vez. Esse era meu pai - sempre com uma idéia mirabolante na cabeça. Ela foi para Ribeirão, pois minha irmã morava lá e nos encontramos para matar a saudade. Chorei quando olhei pra ela, mal-vestida, de chinelo de dedo, cabelo sem tinta, castigada pelos desejos egocêntricos de meu pai. Chorei porque sabia que ela era que mais sofria quando nos separávamos. Os filhos sempre foram motivo de felicidade.

E a segunda vez, há poucos dias atrás, quando estava retornando de uma visita que fiz ao interior de São Paulo, onde meus pais residem. Acho que faz extamente uns 15 anos entre a primeira partida e a segunda. E com muita tristeza no coração ví que nada havia mudado. Era a mesma mulher, castigada pelos desejos de um homem que não sabe viver a vida, que não sabe valorizar essa mulher que cuidou dele a vida toda. "Teu pai está me matando, minha filha. Acho que vou partir antes do que ele." Ela me disse isso com lágrimas nos olhos.

Por favor, Mamãe, não vá. Fique. Aguente firme. Deixe que ele vá antes. E quando ele for, vou cuidar de ti. Eu prometo.

2 comentários:

Anônimo disse...

Que verdadeiro horror...credo!! Tô fora! Ainda bem que sou o tipo de pessoa de coragem e atitudes. Sonhar sem ação é totalmente em vão, acho até que faz mais mal ao coração sonhar e não ter coragem de ir atrás da realização de sonhos do que nem ter sonhado. Sei lá...mas enfim quanta tristeza essa prisão na qual se encontra tal pessoa. Não desejo para ninguém uma situação dessas aí! Por isso eu digo "Tô Fora!" Fui..

Anônimo disse...

Eu aqui, e a Rita Lee já dizia: "Um belo dia resolvi mudar, e fazer tudo que eu queria fazer...!" Me libertei daquela vida...em vez de vulgar pode ser substituída por medíocre! Que eu levava estando junto a você" Dentro do que eu faço existe um porquê!! É preciso saber viver!!Pelo amor de DEUS!!